segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Extraterrestres visitam São Firmino

Estacionaram OVNI à porta do café do Herculano e foram tomar uma Macieira. À saída arranharam a carrinha do Gusto e raptaram um moço que toca na banda, que abandonaram em Ribeira de Pena.


Extraterrestres bêbados estacionaram de qualquer maneira à porta de casa, tendo um deles ficado a dormir toda a noite no jardim

Os habitantes de São Firmino andam aterrorizados e têm medo de sair de casa à noite, depois de se saber que os extraterrestres visitaram a aldeia no passado sábado à noite.

Segundo vários depoimentos recolhidos pelo nosso jornal, um OVNI sobrevoou a aldeia, tendo destruído várias antenas parabólicas e arrancado dois estendais com roupa interior feminina. A seguir, parou na bomba de gasolina do Simões, onde os dois ETs aproveitaram para ver a pressão dos pneus e mudar uma luz de travagem que estava fundida.

Eles entraram aqui muito verdes e eu até perguntei se eram da claque do Moreirense, mas eles disseram que não, que estavam mal dispostos porque tinham passado a tarde a beber vinho doce, numa quinta, ali na zona de Vila Fria. Pediram dois quartos de águas com gás e o mais baixinho foi a correr para a casa de banho chamar ao Gregório”, contou o Simões.

Depois disso, os extraterrestres meteram-se outra vez no OVNI e rumaram à rua principal, tendo estacionado à porta do café Herculano. Os clientes não estranharam porque estavam quase todos bêbados e porque andava por lá um cliente que é emigrante no Canadá e disse que era um destes carros elétricos novos, que se usam muito por lá.

Das duas, uma: ou eram marcianos ou eram de Alfaxim, porque eu conheço um moço de lá que é assim como eles. Meio orelhudo e anda sempre com o cabelo cheio de penachos, até parecem umas antenas”, disse o Herculano, que os atendeu ao balcão e lhes serviu duas Macieiras e um Croft. 

À saída, ainda houve uma discussão porque o OVNI arranhou o para-choques da carrinha do Gusto, mas os ânimos acalmaram-se quando o ET que ia ao volante disse que o tio era dono de uma oficina de chapeiro, em Pevidém, e o Gusto podia mandar lá a carrinha que não lhe levavam nada pelo arranjo.


Mas as peripécias dos dois extraterrestres não ficaram por aqui. Na mesma noite, terão raptado um jovem músico da Sociedade Filarmónica de São Firmino. O André da Sandrinha diz que regressava dos ensaios quando viu uma luz forte e desmaiou.

O moço acordou de manhã, já muito para lá de Fafe, e ligou aos pais para o irem buscar. A família já não estranha estas coboiadas porque já não é a primeira vez que ele apanha uma moca, põe-se empoleirado na ponte da autoestrada e faz chichi para cima dos carros”, explicou a Aidinha do Pomar, tia do jovem.

Desta vez terá corrido e mal e os extraterrestres podem não ter gostado de lhes terem urinado no para-brisas. Ou isso, ou então o André desequilibrou-se, indo cair na galera de um camião, onde adormeceu e só terá saído de lá de cima quando a viatura passou na portagem de Ribeira de Pena e, com os solavancos da Via Verde, ele foi atirado para a berma da estrada.


© Paulo Jorge Dias

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

São Firmino muda-se de armas e bagagens para a Póvoa do Varzim e Vila do Conde


Nos primeiros dias de praia, o Costa Caseiro teve uma paragem de digestão, por causa da água do mar ser muito salgada, e o gang do Quitó roubou um tupperware com panados. O padre Ferreira já mandou avisar que vai fazer uma ação de fiscalização para controlar o tamanho dos biquinis e o Quintino Maluco fez-se passar por médico, para inspecionar os peitos das senhoras.



O Padre Ferreira avisou que vai fazer uma visita surpresa às praias da região, para fiscalizar o tamanho dos biquínis, obrigando a penitências pesadas em caso de topless


Quem chegar a São Firmino por estes dias há de pensar que se tratava de uma aldeia deserta. A culpa é das férias que, como já é tradição, levam a freguesia inteira para as praias da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, durante a segunda quinzena de agosto.


Está cá toda a gente! O Herculano fechou o café e desmontou uma barraca de praia para fazer lá dentro uma tasquinha, que está sempre cheia porque toda a gente quer ver o triquini da Belém. Também veio o João Orlando, da pastelaria Regueifas do Rio Vizela, que trouxe a prima Lucinha e andam os dois a vender bolas de Berlim e língua da sogra”, contou o Costa Caseiro.

Aliás, foi o Costa quem protagonizou o primeiro incidente, junto ao farol: “Mal aqui cheguei estava um calor que valha-me Deus e eu, olhe, atirei-me logo ao mar. Não sei se foi por beber  uma cerveja muito gelada, se foi por bater com a cabeça num penedo ou por a água estar muito salgada, só sei que se me parou a digestão e gomitei cá para fora o frango surrasco que comi em Balasar, que a gente ò pr'a cá faz lá sempre uma paragem para urinar e rezar à santinha”.

Quem promete não dar tréguas aos veraneantes é o padre Ferreira, que já avisou que não admite poucas vergonhas e vai fazer uma visita surpresa às praias da região, para fiscalizar o tamanho dos biquínis. “Ai daquela que eu apanhar a fazer topless ou com umas cuecas de fio dental na parte de baixo, daquelas que deixam as bochechas todas à mostra. É logo obrigada a rezar 50 ‘Pai Nossos’ e 30 ‘Avé Marias’, ali no meio do areal”, avisou o padre.

Além desta ação de fiscalização, que será feita com a ajuda da Rosa pequenina e do Camilo sacristão, o Padre pretende também celebrar uma missa na esplanada do Caximar. “O senhor padre até pediu ao dono do restaurante que emprestasse o aparelho do Karaoke, porque notou que muita gente só canta o refrão do ‘Santo é o Senhor’ e ele quer ver toda a gente a cantar a música até ao fim”, explicou o sacristão.

Igualmente presente está o o temido Gangue do Quitó. O famoso grupo de meliantes hospedou-se em casa de um pescador que já esteve preso com o César francês, em Paços de Ferreira, e já começou a fazer das suas.

Em cinco dias já foram registados três assaltos. No primeiro, foi roubada uma geleira com garrafas de cerveja e um Sumol de ananás, no segundo os ladrões levaram um tupperware de panados e uma garrafa de espadal que estava a refrescar à beira mar e, no terceiro assalto, foi levado o pano de uma barraca, fazendo passar uma vergonha ao casal que estava lá dentro a fazer o amor”, contou à nossa reportagem um agente da Polícia Marítima, que pediu o anonimato, porque entretanto se envolveu com a Sónia Badalhoca e não quer que ela saiba o verdadeiro nome dele, até porque disse que se chamava Jason Statham e ela acreditou.

Outro motivo de preocupação para as autoridades é o famoso doente mental Quintino Maluco. Ninguém estava a contar com ele, mas o Quintino lá arranjou maneira de fugir novamente da Casa Amarela, em Barcelos. Mal ouviu dizer que as mulheres de São Firmino andavam pela praia em biquíni, enfiou-se no cesto das cuecas e meias sujas e saiu da casa de saúde escondido na carrinha da lavandaria.

Pelo meio, aproveitou para roubar uma bata de médico e, mal chegou a Vila do Conde, dirigiu-se às mulheres da nossa freguesia, apresentando-se como Inspetor Geral das Atividades Mamárias, com o pretexto de lhes fazer um exame aos peitos. “Ai, ele foi muito meiguinho e até me detetou um problema de saúde. Diz ele que eu sofro de pelos nos mamilos e receitou-me uma pinça para os tirar”, disse a Zeza, que esteve cerca de meia hora fechada na barraca com o Quintino.

© Paulo Jorge Dias

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Disseram aos vizinhos que iam de férias e ficaram fechados na garagem


Uma família de São Firmino não tinha dinheiro para as férias, mas fez de conta que foi de viagem e escondeu-se na garagem de casa. Vizinhos ouviram barulhos e viram fumo do grelhador, por isso chamaram os bombeiros que entraram pela casa dentro e descobriram-nos a falsificar selfies para porem no Facebook, a fazer de conta que estavam no Brasil.




Família punha imagens bonitas na televisão e tirava fotografias a fazer de conta que estavam de férias num destino paradisíaco.

Todos os anos, por esta altura do ano, repete-se o ritual. Centenas de famílias de São Firmino deixam a nossa aldeia, rumo às praias para aproveitarem a segunda quinzena de férias no Algarve, na Póvoa do Varzim ou, para os menos abonados, num tanque ali em Alfaxim que faz o efeito de uma piscina.
Claro que alguns alargam-se nos gastos durante as Festas de São Firmino e, depois, não lhes sobra dinheiro para ir para fora. É o caso da família do Zé Vítor das Trinchudas que, apesar de ter gasto o subsídio de férias todo em bifanas e farturas, convenceu toda a gente que ia passar 15 dias ao Brasil.
Eles andaram a espalhar por aí que embarcavam no dia 15 para Fortaleza e iam lá estar até ao fim do mês num Hotel de 5 estrelas, com tudo incluído. Saíram daqui com as malas na capota do carro, até levavam a escova de dentes ao dependuro e tudo. Foi-se a ver, era tudo mentira e estavam escondidos na loja”, contou o João Gregório, vizinho da frente e afamado coscuvilheiro de São Firmino.
Ao que parece, o Zé Vítor e mulher, a Cristininha, aperceberam-se que o dinheiro não chegava para irem de férias e, por isso, armaram um esquema: durante os 15 dias em que deviam estar fora esconderam-se na garagem e ficaram muito caladinhos, que é para ninguém perceber que estavam em casa.
Para enganar o povo, começaram a falsificar selfies deles a passear no Brasil. Punham a dar na televisão imagens de praias todas bonitas e, depois, metiam-se em frente ao ecrã e tiravam fotografias a fazer de conta que lá estavam”, contou a Silvinha da Agência de Viagens Guerra. A funcionária explicou que, realmente, o Zé Vítor chegou a ter a viagem marcada, mas desistiu quando descobriu que era o slogan da empresa era “Agência de Viagens Guerra – ou pagas ou ficas em terra”.
Durante alguns dias o esquema resultou e as pessoas acreditaram mesmo que as fotografias que eles meteram no Facebook eram verdadeiras. Pensavam que a família estava nas praias do nordeste brasileiro quando, na verdade, estavam os cinco fechados na garagem, a comer salsichas e arroz de atum, todos muito caladinhos que era para ninguém os ouvir.
Até que, na sexta-feira, o vizinho João Gregório começou a ver fumo a sair da garagem: “Para ficaram morenos, o Zé Vítor ligou o grelhador e puseram-se todos em frente a ele, a apanhar calor e a tostar. Ora, a gente não sabia e, pensando que estava a arder a casa, chamamos os bombeiros. Quando eles arrombaram a porta da garagem viram a família lá toda escondida... que vergonha!”.
O caso foi muito falado em toda a aldeia de São Firmino e, para não ter de encarar os vizinhos, a família do Zé Vítor diz que foi passar uns dias numa casa de turismo rural, ali para os lados do Gerês. Mas os vizinhos desconfiam que desta vez esconderam-se todos na corte dos porcos.
© Paulo Jorge Dias


quinta-feira, 29 de março de 2018

Padre manda compasso ao Algarve para apanhar famílias que foram de férias

Muitas famílias de São Firmino aproveitam a Páscoa para tirar férias e, quando o compasso vai a casa deles, bate com o nariz na porta. Para acabar com esse flagelo, o Padre Ferreira mandou o Osvaldo da Comissão Fabriqueira para as praias algarvias, onde vai dar a cruz a beijar aos saofirminenses. Leva também um multibanco portátil para os fiéis não terem desculpa para não pagar a obrada.
Há 2 anos, o Padre Ferreira enviou um seminarista ao Algarve, durante a Páscoa, mas este desapareceu misteriosamente. Para evitar novo fracasso, desta vez foi o campeão da cobrança de obradas, Osvaldo da Comissão Fabriqueira.



Este ano, além dos vendedores de gelados e bolas de Berlim, as praias do Albufeira, Tavira e Armação de Pêra vão ter uma nova atração: uma cruz do compasso, que vai andar pelo areal à procura de paroquianos de São Firmino que estejam de férias no Algarve.

A ideia é combater esse flagelo que tem custado milhares de euros aos cofres da paróquia. Isto porque, todos os anos, muitas famílias aproveitam as férias da Páscoa para saírem de São Firmino e assim terem uma boa desculpa para não abrir a porta ao compasso.

"Eles julgam que brincam comigo mas eu vou quilhá-los bem quilhados. Quando eles estiverem lá, de nalgas viradas para o sol e a tirar selfies para meter no Facebook... tunga! Aparece-lhes o Osvaldo e os escuteiros com a cruz e eles vão ter que beijar o senhor e pagar a obrada, que eles lá por irem ao Algarve não julguem que são mais que os outros", explicou o Padre Ferreira, em conferência de imprensa.

Batizada de “Operação Páscoa na Praia”, esta missão vai levar um multibanco portátil, a pensar nas pessoas que usam a desculpa do “ai, nunca trago dinheiro para a praia”. A operação mobilizou ainda uma equipa de elite, liderada pelo Osvaldo, considerado o melhor cobrador de obradas pela Arquidiocese de Braga, pelo 5.º ano, consecutivo.

“Ele é do caraco! Se a pessoa faz de conta que não está, ele bate à porta horas a fio até o desgraçado se cansar. Até houve uma vez que a gente percebeu que havia povo lá dentro e ele não esteve com mais: agarrou na cruz e usou-a como se fosse um pé de cabra para arrombar o portão de casa”, disse o Camilo Sacristão.

Com o Osvaldo segue também o Delfim Rasteirinho, conhecido por entrar por janelas, postigos e chaminés, quando os paroquianos se escondem em casa para não abrir a porta ao compasso. “Um dia, lembrou-se e subiu ao telhado pela caleira e, quando chegou lá acima, levantou as telhas e deu com a família do Celso da Cartonagem na sala, a ver televisão. Vai daí, agarrou no balde com água benta e... chus! Entornou-o pela cabeça do Celso”, lembrou o Osvaldo.

A equipa inclui ainda a Célia do Cardoso que, segundo diz o povo, tem visão Raio X. Isto porque só de olhar para o envelope ela vê logo se está vazio ou se tem só uma nota de 5 euros, obrigando a pessoa a meter pelo menos 10, se não ninguém lhe sai da porta de casa.

A missão no Algarve vai ainda contar com o apoio de alta tecnologia, visto que o Padre Ferreira recorreu aos serviços do Nelinho Busca-pólos, afamado inventor de São Firmino, que criou um drone para sobrevoar as zonas balneares do Algarve. O aparelho vai filmar em tempo real os turistas e as imagens vão ser transmitidas para a sacristia, em São Firmino, onde a Camila do Chico da Lavadura – famosa coscuvilheira que reconhece toda a gente da aldeia – estará em frente a um ecrã gigante, a identificar os nossos paroquianos, comunicando depois via rádio a sua localização ao Osvaldo.

Também se pensou em pôr a circular na Via do Infante uma viatura descaraterizada, preparada para detetar e perseguir os paroquianos mal chegassem ao Algarve, obrigando-os logo ali a parar, beijar a cruz e entregar o envelope. Mas o recente aumento no preço dos combustíveis levou o Padre Camilo a adiar este projeto. 


© Paulo Jorge Dias

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

São Firmino atingido por violento sismo

Parecia o fim do mundo. A terra tremeu durante meio minuto, mas foi o suficiente para deixar a nossa aldeia de pernas para o ar. Além dos estragos, houve vários feridos, sendo o mais grave deles o Zé da Mila, que estava na cama e foi esmagado pela mulher, que pesa 160 quilos. Foi preciso tirar as telhas e puxar a Mila por um guindaste. 


Ferido mais grave foi o Zé da Mila, esmagado pela mulher que, por causa do sismo, rebolou sem querer para cima dele.

O sismo teve a magnitude de 0,5 na escala de Richter, que é o equivalente a ter o vizinho de cima a arrastar os móveis, mas foi quanto bastou para semear o caos e a destruição na aldeia de São Firmino.
A terra começou a tremer cerca das 3 da manhã, uma hora em que estava tudo a dormir. Foi o caso do Castro da Drogaria, que ficou ferido gravemente quando caiu do primeiro andar, isto apesar de ele morar no segundo piso.

“Foi tudo muito de repente. Eu adormecei no sofá, a ver o resumo do CCD de Santa Eulália e, de repente, senti tudo a abanar. Quando dei por ela, já eu estava no apartamento de baixo, deitado na cama da minha vizinha Perpétua. Nem deu tempo para aproveitar porque, nisto, chega o marido dela da boîte e, como ele é caçador e já foi campeão de tiro aos pombos, só tive tempo de saltar da janela abaixo”, contou o Castro.

Alguns feridos foram assistidos no local, como foi o caso do Abílio dos Seguros, que levou uma chapada na boca porque a mulher pensou que o tremor de terra fosse ele a ressonar em voz alta. Mas houve quem tivesse de ser assistido no Hospital. Uma dessas pessoas foi a Alexandrina das Nêsperas, que veio à janela ver o que se passava e levou com um vaso que caiu da janela da vizinha de cima.

“Eu vim cá fora espreitar porque ouvi um barulho tipo 'tum, tum', mas pensei que fosse o vizinho de cima a abanar com a cama. Ele costuma fazer isso quando vem da França e chega com a folia toda, mas depois lembrei-me que a mulher dele está cá sozinha e eu achei que era para aí o picheleiro que veio tapar-lhe uma fuga no bidé, porque diz-se que a rapariga se porta mal e ela realmente vai todos os dias à padaria só com leggings e sem mais nada por baixo, deve ser para fazer reclame”, disse a Alexandrina.

O caso mais grave acabaria por ser o do Zé da Mila, que ficou esmagado e teve de ser socorrido pelos bombeiros, como contou à nossa reportagem o comandante Zeferino Ventura: “O tremor de terra abanou-lhe a cama e a mulher, que tem 160 quilos, rebolou para cima dele e o desgraçado ficou ali aflito sem se conseguir mexer. Lá soltou um dedo e conseguiu telefonar para o 112, mas foi um berbicacho jeitoso... a gente levou ali uma hora e meia para o tirar de lá, porque a mulher não acordava nem por nada. Foi preciso abrir as telhas e mandar vir uma grua das obras para levantar a senhora e tirar o marido lá de baixo”.

No meio de toda a destruição causada pelo sismo, ainda houve quem não desse por nada. “Eu tive azar porque nessa noite, como era fim de semana, ia para tomar o Viagra mas, com a pressa, enganei-me e mamei um Xanax. Dormi seguidinho até às oito, mas a minha Chica diz que acordou com um brrroc brrroc a meio da noite, só que não ligou porque julgou que era o nosso filho, João Otávio, a arrastar a mobília. Ele é drogado e já não era a primeira vez que me fugia com uma escrivaninha para pagar uma dose de farinha misturada com um benuron esmagado”, disse o Ilídio das Cabaças.

Há, no entanto, suspeitas de que não houve sismo nenhum e foi tudo um arranjo de vida, para dar a banhada à companhia de seguros. Aliás, já não seria a primeira vez que os habitantes de São Firmino inventavam uma catástrofe. Em 1983 metade da aldeia foi destruída por uma avalanche de caldo verde, mas na altura conseguiram convencer toda a gente que foi o vulcão Ofélia que entrou em erupção.

Na verdade, o que se passou foi que um grupo de amigos se juntou no cimo do monte para tentar bater o recorde do Guiness para a maior panela de caldo verde. Levaram uma cisterna de 20 mil litros que tombou e derramou a sopa pela encosta abaixo. Além do dinheiro do seguro, ainda receberam subsídios do estado e equipas de resgate que vieram ao engano e acabaram a trabalhar de graça nas vindimas.

© Paulo Jorge Dias

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Zombies espalham o terror em São Firmino

Foi uma madrugada de medo e histeria. Correu a notícia que dois mortos-vivos tinham saído do cemitério e o povo, em pânico, desatou a fugir. Mais tarde descobriu-se que, afinal, os zombies eram só o Rubem e o Fábio que tiveram um acidente de motorizada, foram projetados para dentro de uma campa e saíram de lá todos esfarrapados, desdentados e cheios de lama.

A Famell do Rubem ficou neste triste estado, depois do acidente. Vinham ao despique com uma bruxa e, como a vassoura dela era mais rápida, acionaram o nitro e despistaram-se. 


A freguesia de São Firmino acordou em polvorosa. Havia povo aos gritos, a fugir pela rua fora e a dizer que vinham aí os zombies. O alerta foi dado pelo coveiro que desatou aos berros a dizer “Aque de Rei, que os mortos-vivos vêm aí para nos comer a mioleira!”.

Gerou-se o caos junto à Igreja, onde muita gente esperava pelo início da missa das 7h00. Houve ataques de pânico, houve quedas de senhoras que não conseguiam correr por causa dos sapatinhos de domingo e houve ainda guarda-chuvadas em dois escuteiros que aproveitaram a confusão para apalpar os peitos às catequistas.

Mas houve quem não acreditasse na história, como é o caso do Veloso dos Cortinados: “Eu tinha ido tomar café e meio bagaço ao Snack-Bar Herculano quando me disseram 'Ò Veloso, tu põe-te à tabela, que andam aí dois zómbes à solta e já os viram a jogar futebol com a cabeça de um drógado'. E eu, por um acaso, estranhei porque a minha Camila passa as noites a ver aquele filme de zómbes que dá na parabólica e, que eu me lembre, nunca lá vi nenhum zómbe a jogar futebol. Se ainda fosse andebol, ainda vá que não vá, porque a pessoa pode agarrar nos cabelos e atirar a cabeça para a baliza. Agora futebol? Nãh...”.

E o Veloso tinha razões para desconfiar. É que, afinal, não se tratavam de zombies mas antes do Rubem e do Fábio, dois jovens sãofirminenses que são adeptos da velocidade e atividades radicais. Segundo nos contou uma testemunha, ambos estiveram a noite toda a mamar Gin Tónico na discoteca Eskadote e, quando voltavam para casa, ter-se-ão picado com uma bruxa que vinha numa vassoura topo de gama. Como não queriam que uma mulher lhes ganhasse, acionaram a botija de nitro que traziam na Famel e, ao fazer a curva do cemitério, despistaram-se.

Mas o Rubem tem uma versão muito diferente: “O que se passou foi que a gente foi para a náite, encontrámos lá a Sandrina do Almude e Meio e a moça cismou que havia de namorar com o Fábio. Ele chateou-se e disse-lhe 'Não falo mais par ti', mas ela ateimou e a gente teve que fugir. Só que ela veio atrás de nós com a Toyota Hiace do pai dela e, ao passar ao cemitério, bateu-me com o para-choques na roda de trás e a motorizada fugiu-me, estampei-me contra o muro e nós os dois fomos pelo ar e caímos dentro de uma campa aberta”.

Lá dentro, os dois jovens ficaram cobertos de lama, esfarrapados e, pior do que isso, com os dentes partidos porque bateram com a cara numa enxada que o coveiro deixou esquecida lá dentro. Quando conseguiram sair da cova, naquele triste estado, terão sido confundidos com zombies.

“A gente estávamos aflitos e pedimos socorro ao Sérgio Coveiro mas ele desatou a fugir e empurrou a mulher dele para cima de nós. Até disse 'Comei a minha Aurora que é cabeçuda e, por isso, tem mais miolos para esbichar'!”, contou o Fábio. Rapidamente a notícia correu pela aldeia, os sinos tocaram a rebate e, passado o pânico inicial, o povo juntou-se para enfrentar os alegados zombies.

“O meu Marco Adalberto foi à Internet ver como é que se matavam os zómbes e descobriu que era preciso cortar-lhes a cabeça. Vai daí, mandei-o ir a casa buscar a catana que o meu sogro trouxe da Guiné, agarrei nela, fiz mira e... zás. Mandei-lhe uma catanada! Só que o moço agaixou-se e só lhe cortei um carrapito de cabelo que ele tinha em cima”, explicou o Álvaro dos Contrapilas.

Por sorte, nessa altura começou a chover e foi aí que saiu a lama e o sarro dos zombies e percebeu-se que eram o Rubem e o Fábio, que ainda assim não se livraram de um tareão, por terem assustado o povo e entortado a enxada do coveiro com os queixos.

© Paulo Jorge Dias

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Incêndio destrói por completo a sex-shop de São Firmino

Era um dos ex-libris da nossa aldeia, mas ficou reduzido a cinzas. Um brinquedo erótico deixado a trabalhar durante várias horas entrou em sobreaquecimento e pegou fogo, destruindo por completo uma loja que atraía visitantes de todo o Vale de Vizela. Os 12 funcionários temem agora ficar no desemprego.

No combate às chamas, uma boneca insuflável rebentou e queimou os bigodes
ao bombeiro Zé Manel Fogareiro.


O incêndio foi combatido por 50 homens do corpo de Bombeiros de São Firmino, apoiados por um auto-tanque, uma auto-escada, o mata-velhos do comandante, dois carros de bois e uma roulote de cachorros, para dar de comer ao pessoal que se juntou para ver o fogo e dar o orçamento dos estragos.

Não se sabe ao certo o que terá estado na origem do incêndio, mas suspeita-se que um dos brinquedos sexuais vendidos na loja tenha entrado em sobreaquecimento, depois de ter sido deixado a trabalhar toda a noite, para fazer a rodagem.

“Ora bem, o fogo começou na oficina, que é onde a gente faz a reparação do material que o cliente vem devolver. E, por um acaso, ontem à noite a gente esteve aí a trabalhar num vibrador novo, em forma de salpicão, que vinha com potência a mais. Diz a dona que até abria rachadelas na parede e tudo”, disse Eugénio Piripiri, proprietário do estabelecimento.

A sex-shop Mouro & Grelo era um dos principais polos de atração da nossa freguesia, pois vinha gente de todo o Vale de Vizela para comprar os vários artigos eróticos que não se encontravam em mais lado nenhum. Os outros comerciantes temem que o fecho da loja lhes prejudique o negócio, como é o caso da Zirinha dos Diospiros, que tem uma frutaria mesmo em frente: “Sabe, a gente sempre ganhava algum. Muitas vezes o povo saía de lá da sex-shop desconsolado, porque já não havia o artigo que eles queriam e, olhe, levavam daqui uma bananita ou uma courgette para fazer o mesmo efeito”.

Em causa estão agora 12 postos de trabalho, mas o proprietário já disse que vai tentar arranjar uma solução: “Eu a bem dizer arranjo colocação para todos. O pior é o moço que a gente tinha lá a encher bonecas insufláveis. Não se arranja emprego com facilidade a uma pessoa que passa o dia a bufar... só se for para aqueles parques eólicos dar bufadelas para pôr as ventoinhas a trabalhar”.

O estabelecimento já tinha sido alvo de protestos por parte do Padre Ferreira, que acusou a sex-shop de ser um antro de pecado e chegou a ameaçar chegar lume à loja. Mas a hipótese de sabotagem está posta de parte. “À hora do incêndio, o Camilo Sacristão foi visto na zona a carregar um jerrican, mas disse que foi porque ficou sem gasóleo na motorizada e a gente acreditou porque ele não costuma mentir, tirando aquelas duas vezes em que foi apanhado a roubar vinho da missa”, explicou o comandante dos Bombeiros, Zeferino Ventura.

No combate às chamas, um bombeiro ficou ferido devido à explosão de uma boneca insuflável, que tinha sido enchida com hélio – um gás altamente inflamável – para flutuar como os balões. “Ò amigo, eu no meio daquela fumarada toda só vi um corpo de senhora todo despido e, claro, agarrei-me logo a ela a fazer respiração boca a boca. De repente, olhe, parus!!! Aquilo rebentou e eu fiquei todo queimadinho na cara e lá se foi o meu bigode, que tinha tanta estima nele”, contou o Zé Manel Fogareiro.

Transportado para o Posto Médico de São Firmino, o bombeiro foi assistido pela Dra. Zéza dos Brufénes, que procedeu a uma intervenção delicada, que durou várias horas e contou com a ajuda da Goretti Cabeleireira. “Ora bem, a gente para substituir o bigode, que ficou completamente queimado, foi necessário proceder a um implante de cabelos que fomos tirar ao sovaco do paciente”, explicou a diretora do Posto Médico.

O combate às chamas acabou por demorar mais tempo do que estava previsto, uma vez que o fogo alastrou à horta do vizinho Toni Chanaça, onde cultivava umas ervas que, segundo ele, “são para fazer um chá muito bom para a vesícula”. A nuvem de fumo daí resultante provocou um ataque de riso nos bombeiros, que passaram meia hora deitados no chão a contar as estrelas e depois voltaram para apagar o incêndio em tronco nu e ao som da música dos Xutos e Pontapés.

© Paulo Jorge Dias

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Madonna quer comprar casa em São Firmino

A estrela pop está de visita à nossa aldeia mas pouca gente deu por ela. Para passar despercebida anda na rua vestida com um traje do rancho e foi assim que pôde fazer compras na Boutique Çaozinha e ir arranjar o cabelo ao salão da Goretti. Também trouxe o filho que já treina à experiência no clube Levadas do Rio Vizela.

Depois de uma semana a enfardar massa à lavrador e rojões, a cantora saiu de São Firmino com uns quilinhos a mais.

Dizem que São Firmino está na moda e há muito que a nossa freguesia é escolhida como destino de férias de algumas estrelas de Hollywood, vedetas da música e craques de futebol. Ainda nem há 15 dias recebemos a ilustre visita daquele moço que fez de morto num episódio da série “Hawai: Força Especial”.

Mas apesar de ser tão bem frequentada, nunca a nossa aldeia tinha sido visitada por uma estrela mundial como a Madonna. A famosa cantora veio passar uns dias a São Firmino e ficou de tal maneira apaixonada pela nossa terra que decidiu comprar aqui uma casa.

“Eu mal a vi entrar aqui no escritório disse logo: 'Alto que lá vem mula! Assim ruça e com filhos negrinhos, ou muito me engano ou é mulher d'algum jogador da bola'. Cheirou-me a dinheiro e fui logo mostrar-lhe umas casinhas germinadas ali em Santo Adrião e ainda lhe tentei impingir o castelo, ali em Vizela. Mas ela ateimou que queria um palacete aqui em São Firmino e eu, olhe, mandei-a para o raio que a parta”, disse o Sérgio Licranço, sócio-gerente da imobiliária Prédio Devoluto.

Como não viu nenhum negócio que lhe interessasse, a famosa cantora aproveitou o resto do tempo para passear com os filhos e ir às compras. Mas, para ninguém a reconhecer, foi à Boutique Çaozinha e comprou um traje do rancho e assim andou de um lado para o outro à vontade, sem ter de tirar selfies nem dar autógrafos. Logo a seguir foi arranjar o cabelo.

“Ela entrou aqui como se fosse tudo dela e começou a dizer ‘pa pa pa’, sem a gente perceber nada. Olhe, disse-lhe 'Oh yes, òrrait, camóne', fiz-lhe uma mise igual à que faço às velhas do Mês de Maria e ela foi daqui toda regalada. Eu até achei que ela não batia bem do testo porque mal eu abri uma embalagem de laca novinha, a estrear, ela começou logo a cantar Laca Virgin”, contou a Goretti, dona do salão de cabeleireira aqui da nossa freguesia.

Segundo se consta, a Madonna ficou alojada na Residencial Percevejo, onde ocupou a Suíte VIP – que é como quem diz, o sótão – juntamente com os 3 filhos. Aliás, as crianças protagonizaram uma situação engraçada ao adotar como bicho de estimação uma cobra que andava à solta na residencial e toda a gente tinha medo dela. As meninas vieram com ela cá para fora e usaram-na para saltar à corda, que era o que elas costumavam fazer lá em África.

A cantora aproveitou ainda a sua visita a São Firmino para tentar arranjar colocação para o filho, que quer ser jogador da bola. Uma vez que a nossa equipa Levadas do Rio Vizela é muito famosa na América – desde aquela vez em que aproveitaram as filmagens dos nossos jogos para fazer um vídeo de rir no Youtube – a Madonna pediu para o seu mais velho vir treinar à experiência.

“Olhe, eu pr'um acaso até me parece que o mocito tem os pés trocados, porque não dá duas para a caixa. Mas lá aceitei em ficar com ele porque tem bom corpo para trabalhar e pode dar jeito a chapar massa nas obras que a gente vai começar agora nos balneários do estádio”, explicou o treinador, Serafim Largato.

Ao que parece a diva da pop terminou as férias na segunda-feira, altura em foi vista a entrar cheia de malas para a camioneta da Landim, mas antes deu um jantar de despedida para as individualidades da terra. Foi no Snack-Bar Herculano e comeram pica no chão vegetariano que é, basicamente, um pica no chão igual aos outros só que leva duas folhinhas de salsa por cima do arroz.

© Paulo Jorge Dias

sexta-feira, 10 de março de 2017

Camião do circo tombou na rotunda e os animais andam à solta

São Firmino tornou-se numa espécie de Jardim Zoológico a céu aberto. Dezenas de animais selvagens passeiam-se pela aldeia, depois de um acidente com o camião do circo. Jiboia entrou pela canalização e agora anda a sair pelas sanitas, tigre tentou assaltar o talho e levou um tareão do Américo e a zebra foi atropelada depois de ser confundida com uma passadeira.

O dono do circo Pereirini diz que o chimpanzé está habituado a conduzir carros e camiões, mas despistou-se porque naquele dia se enervou ao ver um gato na estrada.

Tudo aconteceu na quarta-feira, dia em que estava prevista a chegada a São Firmino do Circo Pereirini, cuja visita era há muito aguardada pelos homens da aldeia, depois da inesquecível atuação do ano passado, quando a trapezista Senhorinha falhou um salto e aterrou de pernas abertas na cara do presidente da Junta. Mas tudo ficou adiado devido ao trágico acidente de viação.

Olhe, isto foi um azar. O Patrício, que é o nosso condutor do trailer, parou na beira da estrada para ir comprar umas nêsperas e uns pêssegos carecas ali em Lustosa. Mas, como a mulher da fruta o enganou no troco, voltou para trás a reclamar e, quando deu por ela, já o camião ia estrada fora”, explicou Zequinha Pereira, dono do circo e domador de lontras.

Inicialmente, ainda se constou que tinha sido o gangue do Quitó a levar a viatura para ir vender o elefante ao matadouro, mas depois percebeu-se que, afinal, foi um chimpanzé que – não se sabe muito bem como – abriu a porta da jaula e saltou para o volante do camião que trazia os animais do circo.

Ò senhor, o problema não foi o chimpanzé Chiquinho ir a guiar o camião, porque o bicho já fez muito quilómetro e nunca houve nenhum azar. O Patrício disse-me a mim que muitas vezes lhe dava o sono a meio da viagem e passava o guiador para as mãos do Chiquinho. Ele era capaz de ir direitinho daqui até ao Algarve e se fosse preciso até metia gasóleo sem acordar o chófer. O problema foi mas é o raio do gato”, disse o Zequinha.

Isto porque o chimpanzé, ao chegar à rotunda dos capotanços – situada à entrada de São Firmino – avistou um gato no meio da estrada e guinou o volante, para ver se lhe acertava, uma manobra que terá aprendido com o motorista Patrício. Perdeu o controlo do camião que galgou a rotunda e tombou para o lado, abrindo a porta e deixando fugir mais de 20 animais.

Ai Jasus, que aquilo era a fim do mundo... só bichos e mais bichos! Mais parecia que a BBC Vida Selvagem tinha fugido pela televisão fora. Eu estava na esplanada do Herculano e, nisto, aparece uma foca e rouba-me o fino com Martini. Foi aí que se me subiram os nervos à cabeça, agarrei num camelo que vinha a passar e espetei-lhe dois morros no focinho. Só depois é que dei conta que era o meu afilhado que é um mamão de primeira mas, coitado, não tem culpa de ter cara de camelo”, disse o Bino da Tia Ção.

Os animais lançaram o pânico na aldeia, provocando estragos e inúmeros acidentes de viação, tendo o primeiro envolvida a zebra. Foi atropelada por um bêbado numa fraguneta, que a confundiu com uma passadeira e, como ninguém em São Firmino para nas passadeiras, acelerou e mandou-a para o posto médico, onde foi atendida por um pintor das obras que passou três quartos de hora a retocar-lhe as riscas.

Pouco depois foi a vez do tigre fazer estragos, tentando roubar meia vitela, como explica o dono do Talho Américo: “Eu estava no frigorífico a dar um jeito nas febras da Sónia Badalhoca e sai-me o bicho de dentes arreganhados, já com a vitela agarrada às unhas e digo-lhe eu assim 'Tu não me arregales os olhos'. Ele bufou-me e... parus! Dei-lhe com quilo e meio de entremeada na boca que ele ficou para ali esticadinho no meio do chão, que mais parecia um tapete de arraiolos”.

Mais sorte teve a jiboia Lili, que conseguiu abrir uma tampa de saneamento e refugiar-se na rede de esgotos, onde permanece até hoje. Já foi vista a sair de dentro de várias sanitas o que levou dezenas de sãofirminenses a deixarem de ir à casa de banho, com medo de levarem uma ferradela nas bochechas de baixo. Em vez disso vão fazer as necessidades nas hortas, o que faz adivinhar um ano de muito boa colheita agrícola.

© Paulo Jorge Dias

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Taxistas de São Firmino protestam contra transporte ilegal

Os taxistas da nossa freguesia acusam de concorrência desleal um serviço de transporte às cavalitas, que funciona através da Internet e permite às pessoas chamaram um carregador que, por metade do preço, as leva às costas até ao seu destino. O caso já levou a agressões, tendo os taxistas enfiado a cabeça de um carregador na sanita e dado a descarga.

Cada viagem às cavalitas pode custar 1 euro por quilómetro e o passageiro
pode levar as sacas de compras penduradas na boca nos moços.



O serviço é recente mas já é um sucesso na aldeia de São Firmino. Onde quer que a pessoa esteja, basta pegar no telemóvel e chamar pela Internet um carregador, que em poucos minutos vai ao seu encontro e carrega a pessoa às costas até ao seu destino.

Olhe, senhor, a mim dá-me um jeito muito grande porque eu ò sábado vou à feira, a Vizela, e se vou estar à espera da camineta é um atraso de vida porque eu, quando lá chego, as feirantes já só me querem impingir nabiças murchas e diospiros tão relados que nem os porcos os querem. Ò pr'a cá, costumava vir no táxi do Fredo, só que ele é um aldrabão, porque pôs um fundo falso na mala do carro e rouba-me metade das compras”, contou a Ernesta do Cabral, cliente assídua do transporte às cavalitas.

Além da rapidez, os clientes dizem que é mais barato principalmente porque não cobram taxas extra pela carga que o passageiro leva. Os carregadores transportam as pessoas às costas e, pelo mesmo preço, trazem as sacas equilibradas na cabeça ou presas aos dentes. “E até temos um moço que tem umas orelhas de abano que dão muito jeito porque o passageiro pode lá pendurar as cestas das compras”, explica o Paulinho de Paçô Vieira, criador deste serviço.

O negócio agrada a quase toda a gente, menos aos taxistas que perdem clientes e se queixam de concorrência desleal. “Quer-se dizer, eles não pagam gasóile, nem pneus, nem têm que deixar uma nota de 20 no cinzeiro do carro, sempre que levam o carro à inspeção. Assim até eu fazia mais barato! E o pior é que eles enganam as pessoas, porque não me venham dizer a mim que andar num carro de praça é tão confortável como ir às costas de um marreco qualquer. Às cavalitas tem de apanhar com fedor a suor do moço, enquanto no meu táxi não cheira a nada disso... só a bicho morto, porque tenho um gato entalado na solfage e ainda não tive vagar para ir lá raspá-lo”, disse o taxista Emílio Barbas.

O empresário do transporte às cavalitas nega as acusações, afirmando que o seu serviço tem custos acrescidos: “É mentira que a gente não tenha despesas! Fiquem sabendo que tenho de mudar as solas dos sapatos de 5 em 5 mil quilómetros e, certas noites, não me chegam 30 euros em Reumon-Gel para as dores nas costas. Sim que isto de carregar com as moças às costas não é brincadeira. No outro dia fui levar a Zeza a um jantar, em Felgueiras, e ò outro dia tive de ir ao endireita, que eu mal me conseguia mexer”.

O Paulinho de Paçô Vieira acusa ainda os taxistas de agredirem os seus funcionários, sendo que o caso mais grave ocorreu na semana passada, quando foram chamados para ir buscar um velhote ao Snack-Bar Herculano. “Fizeram uma espera ao meu empregado, deram-lhe uma carga de lenha e, no fim, agarraram nele, enfiaram-lhe a cabeça na sanita e deram a descarga. A sorte é que o carregador tinha o cabelo à escovinha e, como conseguiu limpar o sarro da retrete, o Herculano ficou tão contente que, de recompensa, deu-lhe 20 euros e já ganhou a tarde”, explicou o Paulinho.


© Paulo Jorge Dias